terça-feira, 17 de março de 2009

Retorno

Para o regresso ao mundo cibernáutico ficar completo, já só faltava um post. Ando ocupado com coisas, daquelas que nos tiram o sono e nos fazem viver em constante stress. E de repente, um convite dissimulado faz-nos abandonar tudo e seguir para um mundo encantado, de realidades paralelas, de sonhos partilhados, de conversas sem sentido, de bebidas quentes oferecidas na noite quente. Tem sido sempre assim: encontros a horas impróprias, conversas impróprias, gestos impróprios, sempre acompanhados de meias de leite. Aquele ritual.

Por vezes precisamos de alguém que nos puxe para fora da realidade, para a surrealidade da imaginação. Alguém que nos conte estórias como só ela sabe, alguém que nos embale na sua voz adocicada com travo a caramelo, alguém que nos faça rir até da tristeza, alguém que se ria por tudo e por nada (mesmo quando parece soterrada de problemas e dúvidas existenciais) alguém lunático e indeciso, alguém que tenha todas as características de uma criatura imaginária. Porque é por tudo isso que o caos existe: para ser dissolvido em conversas ligeiras, como um snack mental, um coffee break da alma.

Sabe bem desabafar e proferir impropérios e resmungar contra o mundo e mostrar o dedo do meio e sermos nós próprios, nem que seja de vez em quando. Há vezes que valem por muitas.

Tenho-me deixado levar por uma maré de trabalho, de incompreensões, de desânimos, de meias de leite a quem não merece, de memórias esgotantes, de afectos desapegados. Com o peso do mundo nas costas. E afinal, é tudo tão simples de resolver. Vou fugir. Assim sem mais nem menos. Sem avisar ninguém, sem telemóvel, sem expectativas, sem companhia. Talvez já amanhã.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Escrever

Quando queremos escrever, mas não temos assunto, refugiamo-nos em rotinas. Banalidades. Casualidades. Intimidades. Lixo televisivo. Devaneios. O tempo, o eterno refúgio (se bem que na escrita não tem tanto impacto como numa conversa).

Admiro quem escreve por gosto e não se cansa. Quem consegue passar um dia de trabalho debruçado sobre palavras. Admiro quem quer passar um dia inteiro a lidar com elas. Moldando-as, transformando-as, criando histórias. Quem consegue fazê-las passar pelo buraco da fechadura que é o bloqueio. Gostava que as palavras me amassem tanto como eu as amo. De verdade. Mas é fácil amar o que não tem defeitos, certo?

Sou uma crónica

Seguindo o exemplo de alguém que conheço e cujo resultado corresponde à realidade de uma forma tão literal que teríamos de inventar um novo nome para realidade para descrevê-lo, fiz o teste de espírito leve. E depois sai-se-me este resultado.




You're The Lion, the Witch and the Wardrobe!

by C.S. Lewis

You were just looking for some decent clothes when everything changed
quite dramatically. For the better or for the worse, it is still hard to tell. Now it
seems like winter will never end and you feel cursed. Soon there will be an epic
struggle between two forces in your life and you are very concerned about a betrayal
that could turn the balance. If this makes it sound like you're re-enacting Christian
theological events, that may or may not be coincidence. When in doubt, put your trust
in zoo animals.



Take the Book Quiz
at the Blue Pyramid.



Tenho de aprender a confiar mais em animais. Está visto. E ter mais cuidado a escolher roupa.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Ponto final

Às vezes, o melhor é não olhar para trás nem para baixo. O melhor é olhar em frente, para o que ainda há-de vir. Mesmo que não venha, quando estivermos à frente, não vamos estar a olhar para trás, para o que não veio. Wise words de uma amiga. Pode ser que citando o que disseste lhe dês mais importância. Vá lá, isto é só uma fase menos boa. Olha para a frente. De certeza que só virão coisas boas.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

...

O tormento das palavras que não saem. Ficam engasgadas na garganta, na ponta dos dedos, às vezes debaixo da língua. Sufocam. Martirizam. Quisera eu ser escritor - como se isso resolvesse o problema, na verdade só piora - ou simples poeta. Pena as palavras serem as minhas piores inimigas (ainda não aprendi a gostar delas). Por enquanto, deixo-me levar pelos silêncios. Deles gosto. Não ferem os ouvidos, não atormentam os olhos, são leves ao tacto. Vou-me deixar afundar na ausência de palavras. O monólogo do silêncio...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

My coffee latte nights

Consigo sentir o sabor da tarte, o doce da massa e o ligeiramente ácido dos mirtilos, o morno da cozedura e o frio do gelado de baunilha, tudo num só toque de lábios. Imagino as nossas mãos dadas em cima da mesa, o teu toque quente na pele ferida pelo vento, olhos fixos nos meus. Ao longe uma melodia de voz grave, como um mar que nos afoga pouco a pouco.



Obrigado a esta amiga, por me ter obrigado a ver este filme. Trouxe-me memórias e expectativas, tudo numa só vaga. Não é que tenha gostado muito do enredo, mas dei por mim a não dar por mim. E na melhor das companhias.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Memórias

Há tantas coisas que me passam pela memória! Momentos, essencialmente, e alguns versos que decorei sem querer, músicas, sorrisos e aromas. Tudo isso fica guardado, mas muitas vezes me pergunto para onde vão esses pedaços de mim e das minhas vivências quando eu deixar de existir.

Mas estas coisas metafísicas e algo filosóficas deixam-me consternado, afogam-me em dúvidas e silogismos sem fim e acabo por questionar: não será a memória um grande desperdício?

Disseste-me que não, que recordar é (re)viver. Eu concordei, mas não deixei de indagar: de que serve a memória se a nossa mente não existir? São questões que só me passam pela cabeça de vez em quando, especialmente quando tudo está tranquilo - é na tranquilidade que surgem as perguntas que me colocam no estado de espírito de sempre (inquietude).

Não quero recordar pedaços de memória que doem. Acima de tudo, não quero recordar as agulhas que foram espetadas no coração. De resto, não me importo de me lembrar de tudo aquilo que ainda hoje me faz sorrir. Seria tudo muito mais fácil se a memória tivesse um botão de 'on' e 'off', disse alguém com quem partilho luares frequentemente. É verdade. Mas nada que valha a pena é fácil, disse outro alguém. E aqui me divido entre dois pontos de vista que não fazem mais do que perturbar esta mente já de si atribulada.

Se há coisa que quero recordar, são as estórias, aquelas pequenas estórias com que se constroem as vidas e que nos transformam constantemente em quem nós somos.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Artigo primeiro (em jeito de começo atribulado)

Às vezes penso que estou obcecado. Muitas vezes tenho a certeza.

Deixamo-nos embalar pelas horas que passam sem nos darmos conta, envolvemo-nos em atmosferas que criamos com as palavras que nos saem sem que as consigamos controlar, brincamos com argumentos e saboreamos os sonhos, aqueles que nos tomam conta da mente quando estamos distraídos. Ficamos doloridos de nós próprios, mas sedentos das palavras do outro - o paradoxo que nos define? - como se não nos falássemos há anos e anos - será isto normal?

A tua presença carrega uma certa leveza - não aquela que é insustentável ao ser, longe disso! - e não consigo deixar de me embrulhar na tua aura, nas tuas gargalhadas tão fáceis de despertar do teu diafragma de bailarina, nos sonhos que partilhas comigo.

Em jeito de começo, algo atribulado, me rendo às palavras que me faltam e assim termino o artigo, o primeiro. De muitos. Na tua companhia. Doce musa.